Cartografia da Memória

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CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DOS RETIRANTES (1915-1932)

Desde a década final do século XIX, havia uma preocupação por parte das elites locais cearenses com os fluxos migratórios dos chamados retirantes que, depois, seriam alcunhados de “flagelados da seca”.
Por falta de opção e despossuídos de suas terras, os camponeses e suas famílias saíram do sertão andando a pé pelas estradas e utilizaram trens em direção aos centros urbanos, em especial, até a capital. Esse fato dobrou a população de Fortaleza na virada do século XIX para o século XX.
A fuga do campo ocorreu por causa da ausência de chuvas e do processo capitalista em expansão das relações compulsórias de exploração, esse contexto foi marcado por relações semelhantes à escravidão, de desigualdade no campo, ampla concentração de terras e nenhuma proteção aos agricultores, especialmente, quando ficavam sem o mínimo de lavoura para a subsistência nos períodos de estiagem.
As secas ocorridas em 1877 a 1878 e as de 1888 a 1900, ampliaram os fatores de exploração, direcionando os mais pobres para atividades laborais de forma compulsória e em condições desumanas.
A partir de 1877, as forças burguesas tentaram segurar essas pessoas antes de alcançarem os núcleos das cidades, era a concepção moralista de progresso higienista. As práticas de isolamento e canalização dos sertanejos, eram realizadas negando o acesso democrático a água, mantendo os latifúndios e desenvolvendo bolsões para barrar, ao máximo, homens e mulheres vulneráveis, desprovidos de terras. Essas tentativas não resolveram os problemas agrários, expondo as relações de poder assimétricas.
Existiam promessas de trabalho digno em obras como açudes, ferrovias, prédios públicos e em propriedades privadas. Contudo, esses serviços ocorriam em condições de extrema exploração, com violações de direitos. Nesses espaços, os retirantes eram encurralados e recebiam o mínimo para se alimentar. Desses abarracamentos houve o primeiro Campo de Concentração, em 1915, uma iniciativa modeladora cuja função era garantir a ordem em Fortaleza, evitando uma nova invasão ao centro, protegendo a suposta imagem “Belle Époque”, com avenidas, praças, cafés e mansões mantidas pelo cultivo do algodão, desde o final do século XIX.

Antiga sede Centro de Defesa de Direitos Humanos Antônio Conselheiro – Senador Pompeu – Fotos: Emannuel Vitoriano em 2022.
Igreja Matriz – Senador Pompeu – Foto: Emannuel Vitoriano em 2022.
Museu da Estação Ferroviária, antiga REFESA – Senador Pompeu – Foto: Emannuel Vitoriano em 2022.
Prédios utilizados para receber e filtrar as rações insalubres dadas aos retirantes — Sítio do Patu – Senador Pompeu – Fotos: Emannuel Vitoriano em 2022.
Sítio do Patu – Senador Pompeu – Fotos: Emannuel Vitoriano em 2022.