Desde a década final do século XIX, havia uma preocupação por parte das elites
locais cearenses com os fluxos migratórios dos chamados retirantes que, depois, seriam
alcunhados de “flagelados da seca”.
Por falta de opção e despossuídos de suas terras, os camponeses e suas famílias
saíram do sertão andando a pé pelas estradas e utilizaram trens em direção aos centros
urbanos, em especial, até a capital. Esse fato dobrou a população de Fortaleza na virada
do século XIX para o século XX.
A fuga do campo ocorreu por causa da ausência de chuvas e do processo
capitalista em expansão das relações compulsórias de exploração, esse contexto foi
marcado por relações semelhantes à escravidão, de desigualdade no campo, ampla
concentração de terras e nenhuma proteção aos agricultores, especialmente, quando
ficavam sem o mínimo de lavoura para a subsistência nos períodos de estiagem.
As secas ocorridas em 1877 a 1878 e as de 1888 a 1900, ampliaram os fatores de
exploração, direcionando os mais pobres para atividades laborais de forma compulsória
e em condições desumanas.
A partir de 1877, as forças burguesas tentaram segurar essas pessoas antes de
alcançarem os núcleos das cidades, era a concepção moralista de progresso higienista. As
práticas de isolamento e canalização dos sertanejos, eram realizadas negando o acesso
democrático a água, mantendo os latifúndios e desenvolvendo bolsões para barrar, ao
máximo, homens e mulheres vulneráveis, desprovidos de terras. Essas tentativas não
resolveram os problemas agrários, expondo as relações de poder assimétricas.
Existiam promessas de trabalho digno em obras como açudes, ferrovias, prédios
públicos e em propriedades privadas. Contudo, esses serviços ocorriam em condições de
extrema exploração, com violações de direitos. Nesses espaços, os retirantes eram
encurralados e recebiam o mínimo para se alimentar.
Desses abarracamentos houve o primeiro Campo de Concentração, em 1915, uma
iniciativa modeladora cuja função era garantir a ordem em Fortaleza, evitando uma nova
invasão ao centro, protegendo a suposta imagem “Belle Époque”, com avenidas, praças,
cafés e mansões mantidas pelo cultivo do algodão, desde o final do século XIX.