O massacre do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, na Chapada do Araripe, ocorreu em 11 de maio 1937. No ano seguinte, atacaram os sertanejos que faziam parte da comunidade e em 1936, registraram as primeiras invasões ao local pelas forças policiais, destruindo as casas e expulsando os moradores.
A chacina realizada contra os sertanejos pobres dessas terras, levados a cabo pelos agentes da lei, que lutavam em defesa da ordem, militarizada, a serviço de oligarquias e ordenada pelos gestores do Município, Estado e União, naquele momento histórico da década de 1930.
O extermínio do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, foi legitimado por meio de campanhas difamatórias propagadas em jornais locais e na esteira de um projeto de sociedade que definia o local como perigoso, fruto de instintos primitivos e arcaicos, que deveriam ser erradicados no Estado Novo.
O Estado Novo, tratava-se de um projeto político, centralizador, que defendia os ideais progressistas com a consolidação de um modelo de lucro, bem como se autoproclamava combatente de fanatismos danosos a ordem pública.
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, desenvolveu-se enquanto um espaço de devoção religiosa e agrupamento comunitário de camponeses, liderados pelo beato
paraibano, José Lourenço, filho de escravos que vieram para o Cariri em meio as romarias que aconteciam em torno da figura de Padre Cícero.
Inspirado na fé e nas ações do Padre, José Lourenço reuniu no Sítio Baixa Dantas, terreno próximo a cidade do Crato, retirantes, agricultores e devotos através da fé, em busca de condições para produção e usufruto solidário dos bens de subsistência.
A comunidade organizada pelo beato, despertou perseguições em razão dos preconceitos contra os camponeses que foram rotulados de fanáticos, primitivos e potencialmente perigosos. Na época, foi disseminada uma calúnia de que haveria um culto ao “boi mansinho”, um touro zebu, doado por Padre Cícero e criado por José Lourenço.
Floro Bartolomeu, deputado de maior influência na região, mandou prender o beato e ordenou o abate do animal, que ganhou fama de “milagreiro”. O discurso para tal decisão, era a necessidade de eliminar superstições que não condiziam com os novos tempos da república e com o progresso do local. Estavam combatendo heresias bárbaras cometidas contra a sociedade cristã em evolução. O beato e o seu agrupamento foram expulsos do Sítio Baixa Dantas, deixando a propriedade sem receber indenizações e logo após tornar o solo fértil.