Cartografia da Memória

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CHACINA JAPUARA: CONFLITO DE TERRAS – CANINDÉ (1960-1970)

A “Chacina Japuara”, ocorrida em 02 de janeiro de 1971, teve ampla
repercussão nacional e foi marcada por uma série de eventos violentos, envolvendo forças policiais e camponeses.

Os conflitos aconteceram na fazenda Japuara, distante cerca de 15 km da
zona urbana do município de Canindé. Foram registradas, oficialmente, a morte de quatro homens e várias pessoas feridas, presas e torturadas.

A chacina foi resultado da ação de destruição do açude e das casas dos moradores que habitavam na propriedade. O fazendeiro da região, desejava a saída dos posseiros, negando os acordos anteriores feitos pelo antigo administrador. O novo
proprietário queria usar a terra para expandir o rebanho, acabando com as plantações do sítio.

O dono anterior cultivava uma relação amistosa com as 38 famílias da localidade, lavorando com preços justos para o proveitoso uso da terra feitos por esses posseiros. Entretanto, isso foi interrompido devido a venda do imóvel. A compra estava destinada ao administrador do falecido, porém o gerente abandonou o negócio e Francisco Nogueira Barros, conhecido como Pio Nogueira, tornou-se o novo gerente.

O novo proprietário não queria uma fazenda produtiva, com posseiros
amigáveis e bons trabalhadores, pois pretendia unificar as terras e usar o açude disponível para intensificar a criação de gado, tornando essa a principal atividade.

O gerente era filiado ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Canindé e a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Ceará – FETRAECE, desde 1969, e decidiu ajudar os camponeses na busca por indenização com devido amparo jurídico. A solicitação estava amparada na legislação da época que impedia a expulsão dos trabalhadores rurais.

O conflito sucedeu em uma conjuntura de disputa judicial e forte tensão cotidiana, por conta do choque de interesses e da insistência do fazendeiro em alcançar a sua vontade de qualquer maneira.

Foi nesse clima hostil que, na manhã do dia 02 de janeiro de 1971, capangas contratados pelo novo proprietário, depredaram as casas e o açude da fazenda Japuara, onde residiam as famílias dos posseiros. O número estimado de pessoas obilizadas na empreitada de destruição, foi entre cem a duzentas. Durante o embate, um dos capangas morreu ao cair do teto da casa de Pio Nogueira, após um tiro de espingarda. Na sequência, o dono da residência disparou para o alto, retirando a turba invasora.